Luzes

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Acordou mais uma vez com a boca seca. Já passava das três horas da tarde e o sol alto incomodava seus olhos. Logo a noite chegaria e ele teria que ficar pronto para o trabalho. Juntou suas coisas e foi tomar um banho, longo e demorado como sempre era. No banho, podia pensar em tudo que deixou para trás antes de chegar ali. Pensava na família, nos amigos, e em suas tolas, porém grandes conquistas pessoais. Não valiam muito para os outros, é verdade, mas para si, sempre foi uma grande coisa.

Era por essas e outras que agora ele estava ali, com seu negócio, solitário, esperando apenas uma oportunidade para levantar voo novamente, ou simplesmente ficar ali para sempre.  Saiu do banheiro com a toalha sobre o pescoço. O calor era intenso e ele nunca se importou muito com sua nudez. Enfim pegou uma roupa leve, mas colocou na bolsa um casaco velho que sua mãe havia lhe dado na última vez que se viram, pois sabia que a noite, pouco antes da madrugada, costumava esfriar assustadoramente.

Pegou suas lâmpadas velhas e mais alguns potes de vidro, sua maleta de solda e fios e foi para seu ponto tradicional.  Sim, era nisso que trabalhava. Customizava lâmpadas velhas, modificando e arrumando, deixando-as novas de novo. Algumas ele deixava com aquele aspecto de galáxia que os jovens tanto procuravam. Outras, ele apenas trocava tudo o que havia por dentro por peças novas, e que estranhamente duravam “para sempre”.  Além das lâmpadas tradicionais, conseguia transformar qualquer recipiente de vidro em lâmpada. Normalmente usava potes pequenos, mas em sua casa também usava potes grandes. Era sempre divertido ver a reação das pessoas ao ver uma lâmpada feita com um vidro de pimenta ou de azeitonas.  Alguns mais curiosos e falantes perguntavam de onde ele veio e o que fazia por ali além das suas luzes maravilhosas. Ele, que preferia se reservar quando o assunto era seu passado, apenas dizia que voou muito e acabou pousando ali, e que fazia o que gostava de fazer.

Na feira não havia só ele. Vendiam também coisas básicas como pães caseiros, doces e verduras plantadas em casa, porém ele era o único que vendia algo que enchia os olhos de todos, e encheu os dela também.  Não notou quando ela se aproximou, mas viu alguém tocando os pequenos saleiros de cabeça para baixo iluminados. Na hora estava dando atenção para outro cliente e só quando se virou para ver o próximo, se viu naqueles olhos cheios de brilho com suas luzes. Olhos que ele sabia bem a quem pertencia. A primeira cliente, alguém que sempre aparecia desde que ele apareceu, morena dona de um cabelo longo preto e brilhante. Era mais nova que ele como a maioria de seus clientes. Aquele sorriso era irresistível. 

– Olá boa noite!

– Boa noite madame, no que posso lhe ser útil?

– Madame? – Ela soltou um sorriso!

– Não sei seu nome, nunca perguntei, desculpe minha falta de educação!

– Tenho minha parcela de culpa, afinal venho aqui direto e não sei seu nome também!

– Sou Marcos e você?

– Valéria, é um prazer Marcos, como anda sua vida?

– O prazer é todo meu não tenho do que reclamar. E como vai você?

– Estou bem, graças a você.

– Graças a mim? Hahaha, como assim?

– Suas lâmpadas, elas velam meu sono.

– Fico lisonjeado com isso, em que esse humilde servo pode lhe ser útil? 

– Quero que me conte sua história!

– Não tenho histórias para contar, não sou bom nisso, e garanto que as lâmpadas são mais interessantes…

– Todos têm histórias, alguém com um dom tão lindo como o seu, tem que ter um começo, sou repórter, quero contar sua história para o mundo, você me ajudou quero te ajudar vai ficar famoso!

– Não me interessa fama, o que posso fazer por você é te pagar uma bebida depois que eu sair.

– Combinado então, vou dar uma volta daqui a pouco nos vemos.

– Até mais! 

Aquele jeito dela sorrir, o remetia ao seu passado, e isso lhe incomodava, continuou a vender, mas não conseguiu tirar o sorriso da mente, então guardou suas coisas e esperou ela retornar, enquanto fumava recordava de seu passado. Ela apareceu algum tempo depois, ficou brava por ter visto que ele estava pronto, queria ter ajudado a arrumar suas coisas.  Foram para um bar perto da casa dela, ela recomendou, ele pediu conhaque e ela cerveja, ao serem servidos, a conversa recomeçou.

– Porque lâmpadas? – Ela perguntou

– Porque não? 

– Você não gosta da falar sobre você? 

– Desculpe não tenho muito que falar, sobre mim.

Responda-me, porque comprou lâmpadas?

– Ah um tempo não conseguia dormir, algo incomodava na escuridão, comprei a primeira por achar bonita, e quando acendi uma paz estranha me preencheu, esqueci-me do escuro e dormi como criança, as outras fui enfeitando minha casa o escritório, e ando mais leve desde então.

– Bom agora você sabe por que lâmpadas… 

– Não, eu sei por que eu as compro e não porque você as faz…

Ele pediu outra dose, e perguntou se podia fumar ali, se não a incomodava o cheiro do cigarro, ela disse que não.

– O motivo é esse seu, as pessoas tendem a se sentir seguras com luzes iluminado a sua volta, eu só faço lâmpadas e as vendo, não tem nada de místico nisso.

– Assim você quebra o encanto. – Ela riu.

Era realmente um riso muito bom de ouvir.  A verdade é que nunca houve encanto nenhum, apenas algo tão natural que era difícil de ser compreendido por mentes tão lógicas que buscam o sentido e mil motivos para tudo. Tragou seu cigarro lentamente enquanto ouvia-a dizer e insistir sobre qualquer história que pudesse haver. 

– Mas já que não tem nada místico como você mesmo diz, então como começou tudo isso? Quando você percebeu que era uma boa ideia levar “luz para a humanidade”?   

Ele sentia um tom irônico, mas até que era divertido. 

– Começou comigo mesmo. Um dia eu estava sozinho, procurando algo para me entreter. Havia a escuridão e então veio à luz. Eu não tinha muita prática, então as primeiras lâmpadas queimavam em questão de segundos. Quando eu fiz uma que conseguiu durar por uma semana inteira, resolvi fazer outras, e então, você comprou a primeira. 

– Isso eu me lembro. Não havia muitas, mas ainda assim, eram e ainda são extremamente interessantes. 

Ela então passou a pensar sobre o que ele havia dito. “Havia a escuridão e então veio à luz”. Por vezes ela mesma ficou incomodada com a escuridão e tudo que vem com ela, e então veio à luz, aquela pequena lâmpada pouco convencional que mesmo sendo feita de forma artesanal, era capaz de iluminar todo o ambiente. Percebeu que mais que o ambiente, ela iluminava também a sua mente, que outrora, não era capaz de enxergar qualquer claridade. 

Conversaram outras amenidades, e então, saíram dali para caminhar um pouco. A noite estava fresca e a lua alta. Era uma ótima para caminhar ao som de uma voz agradável.  Finalizando seu cigarro, ele a convidou a sentar numa praça próxima, bem arborizada. Além da lua, postes antigos, clássicos dos anos 20, restaurados recentemente, ajudavam a dar luz ao local. Aproveitando o encantamento dela, aproveitou para rebater algumas perguntas. 

– E você, como começou a ser jornalista? – Disse ele despreocupadamente. 

Ela virou o rosto, olhando as árvores, e respondeu: 

– Não sei dizer bem, não são muitos que me perguntam sobre isso… talvez tenha nascido da vontade de dar voz a pessoas que tem tanto para falar e tão pouco espaço. Da vontade de contar histórias… Da vontade de… – e então ela se calou. 

Ele olhou para ela que agora encarava o chão, bem séria. Esperou um pouco para perguntar o que havia acontecido, talvez ela tenha se lembrado de algo. Mas quando se deu conta, alguém estava atrás dela, com uma arma apontada para suas costas. Antes que pudesse fazer algo, foi surpreendido por um homem apontando uma pistola em sua testa.  Os dois homens, altos e com um capuz feito de touca, pediram para os dois se levantarem. Ele ficou apreensivo apesar do semblante extremamente calmo. Ela estava pálida, nitidamente apavorada. Mal se mexia e era só observar suas mãos para perceber o quanto. Até então, ele estava colaborativo, cooperando e entregando tudo o que eles pediam. Até que eles começaram a passar a mão nela e ele resolveu agir.

Derrubou um dos caras num ato impensado e nenhum pouco calculado. Quando o desmaiou com uma coronhada na cabeça, ouviu um click por trás. Foi tudo muito rápido. Assim que o tiro foi disparado, ela pulou na sua frente, caindo desmaiada. O sangue logo começou a correr, mas não tão rápido quanto o assaltante que a está hora já estava longe. 

Havia escuridão.  Então veio à luz.  

Era o que dizia o bilhete com rosas brancas e amarelas ao lado da cama do hospital. Ela acordou atordoada, com tantos fios e um soro que pingava lentamente, ligado à sua veia, mas abriu um sorriso enorme ao ver as flores e uma pequena lâmpada feita com um pequeno vidro de perfume redondo. 

 

Escrito por : Aleks Durden e juhliana_lopes

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Depois do coma

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Ele acordou no nosso tempo desnorteado. Foram anos em coma e mais um tempo retornando aos poucos, reaprendendo a falar e a andar. Mesmo com os longos meses de recuperação, ninguém apareceu para busca-lo, nenhum parente ou contato. De alta, pegou suas coisas e começou a caminhar pela cidade que ainda era a mesma, mas ao mesmo tempo era tão diferente a seus olhos. Era noite e precisava de uns trocados, achou enfim um caixa eletrônico do banco que tinha uma poupança. Para sua sorte, havia muito dinheiro, o suficiente para comprar o que quisesse, mas resolveu sacar só um pouco e foi comprar cigarro.

Entrou em um bar onde existia uma música horrível tocando. “Então era isso o futuro?” pensou consigo mesmo chateado. Pagou e achando um absurdo o preço do cigarro e se surpreendeu mais ainda quando o acendeu e foi avisado que não podia fumar ali, só tinha o direito de fumar em locais abertos. O futuro não parece nada com o que ele sonhava nas noites de sua infância. As pessoas se vestiam de forma estranha, quase seminua, aquilo incomodava seus olhos. O cheiro da poluição afetava seu nariz e fazia lágrimas escorrerem, então fumava um cigarro atrás do outro, para tentar amenizar o odor. Luzes muitas luzes, parecia que tudo era feito de luz, a noite se confundia com o dia. Os carros silenciosos passavam rapidamente por ele, e motocicletas voavam baixo pelas ruas; ruas que ele desconhecia onde só os nomes eram os mesmos, mas as casas, as pessoas eram todas diferentes. Seguindo por mais ruas barulhentas, chegou a seu bairro, pelo menos o que ele achava que deveria ser. O reconheceu por uma árvore que havia em uma pequena praça. Era estranho ela ainda estar ali em meio a tantas mudanças, era como uma cápsula do tempo para ele, algo precioso que fez seu coração disparar de felicidade por alguns segundos. O resto lhe deixava preocupado. Todas as casas possuíam muros altos, inclusive a que ele morou um dia, que agora era maior e pintada com cores vivas. Aparentemente tinha gente na casa, e mesmo com um aperto no peito ele apertou a campainha. Eram por volta das 21h ainda, as luzes estavam acesas, e alguém apareceu. Ele observou a mulher que se parecia muito com sua mãe, porém mais nova, se aproximar do portão. Um nome lhe veio à mente, Emanuele.

– Pois não? – Ela lhe disse, não o reconhecendo.

– Emanuele? – Ele respondeu.

– Sim e você é quem? – Respondeu a moça ainda sem abrir o portão com uma das sobrancelhas arqueada como sua mãe fazia quando estava desconfiada.

– Como não me reconheceu? Sou eu Carlos! – Ele disse numa mistura de surpresa e desespero interno ao perceber que ela não se lembrava dele. Houve um silêncio breve, e um ar de surpresa na face dela.

– Como assim Carlos? – seu tom agora era preocupado, mas ainda com um pouco de desdenho. – Carlos meu irmão? Não pode ser, é impossível! O Carlos… Ele… Ele está morto! – Disse por fim como se para dizer isso, fosse difícil de engolir.

– Bem… Não estou… Pelo menos… – disse olhando para suas mãos por um breve momento – Não aparento estar.

– Moço, isso é algum tipo de brincadeira? Isso não tem graça nenhuma sabia? – disse Emanuele com um tom de choro, mas ainda se fazendo forte.

– Eu não morri! Estou aqui! Disseram-me que eu fiquei de coma, já faz seis meses que eu acordei. Passei por muitas sessões de fisioterapia para aprender a andar novamente. Eu tive que aprender a falar de novo também! Eu não posso estar morto… Olha pra mim! – Ele se sentia mal em ter que dizer tudo aquilo. Nem tinha certeza se aquela era mesmo sua irmã e já estava colocando seu desespero pra fora. Nunca foi de convencer ninguém a nada e agora, por dentro se sentia fraco e impotente. Ainda sim, sentia uma necessidade horrível em ser reconhecido e não podia perder a chance, por mais que seu orgulho gritasse para não fazê-lo.

– Eu não sei se estou ficando doida, mas agora você falando, reparei algumas semelhanças com meu pai. Mas não, é só a minha mente querendo brincar comigo. Você… O Carlos, ele morreu. Eu ajudei a preparar o corpo, eu o velei por uma noite inteira e o enterrei, há 10 anos. Por favor, saia daqui antes eu chame a polícia! – Ela sentia um gosto amargo na boca ao dizer tais palavras. Apesar de pedir para que ele saísse, ela permaneceu ali no portão, se segurando na barra, desejando que tudo aquilo fosse um sonho ruim. No fundo o que ela mais queria era abraçar aquele homem, mas como poderia confiar se ela o tinha visto morto.

– Espere, é uma prova que você quer? – disse vasculhando seus bolsos – Aqui está! Aqui! – mostrou com um sorriso desesperado – Me deram no hospital. Meus documentos, eu consegui até tirar dinheiro da minha poupança usando o número antigo da minha conta. Olha! Olha! – Ele mostrava eufórico, colocando sobre as barras do portão. Nunca havia sentido essa sensação. Um medo misturado com angústia. Será que era assim que as pessoas com amnésia se sentiam? Será que era assim que as pessoas abandonadas se sentiam? Será que esse era o preço para ser invisível? Diversas questões saltavam em sua mente e explodiam diante de seus olhos, fazendo sua cabeça pulsar num misto de dor e febre que aos poucos o deixavam mais fraco. Agora tremia e suava frio, sem nenhuma explicação.

– Espera… – Emanuele examinava os documentos com cautela num misto de desconfiança com uma esperança oculta. Era certo que diversas vezes sonhou em reencontrar seu irmão, mas mal podia acreditar que aquilo poderia estar acontecendo mesmo.

– Você?! – Gritou surpreso um homem alto descendo as escadas.

– Ro… Roberto? – falou com cuidado apertando os olhos tentando reconhecê-lo.

– Amor, é o Carlos, olha… São os documentos dele, é ele! – Ela dizia com uma voz doce levemente histérica mostrando ao marido os documentos.

– Você! – falou mais uma vez o homem abrindo o portão com violência. – Quantas vezes eu vou ter que te matar? – Ele gritava, agarrando-lhe pela blusa. Se fosse há outros tempos, já teria derrubado o cara com um soco, pois não admitia que ninguém lhe tocasse, ainda mais tão perto do rosto. Agora se sentia um boneco, sendo jogado de um lado para o outro por aquele gigante de terno.

– Amor! Larga ele! – Emanuele tentava em vão separá-los.

Roberto então o largou no chão. Ele não tinha forças para se levantar, e então percebendo a besteira que fez, tentou levar sua esposa para dentro novamente.

– Não liga pra esse louco. Vamos embora amor… – Ele dizia tentando empurrar a esposa para dentro.

– Não! – Emanuele gritou. Talvez fosse a primeira vez que enfrentava o marido diante de uma ordem, e agora não iria parar. – Como assim, “quantas vezes eu vou ter que te matar?” O que você quis dizer com isso? – Nem Roberto, nem Carlos nunca haviam visto ela em uma posição tão ofensiva. Roberto sempre a teve como a esposa obediente que precisou de amparo com a morte do irmão e dos pais um tempo depois, precisando da ajuda do marido para administrar a herança que recebeu de seus pais. Carlos só se lembrava dela como uma menina doce e carinhosa que amava os pais e tinha uma admiração enorme por ele como irmão, muitas vezes querendo imitá-lo em tudo, e sempre o protegendo com seus abraços quando tinha pesadelos a noite e fingia que não estava chorando.

Roberto, com o sangue que lhe subia a cabeça deixando vermelho, após a primeira explosão, explodiu pela segunda vez.

– Eu forjei a morte dele sim! Cuidei de tudo, você precisava do dinheiro, nós precisávamos… Eu precisei pra fechar aquele negócio que colocou a minha empresa no topo! Você nem percebeu que eu coloquei outro corpo, que diferença faz agora? Ele está tão morto quanto seus pais. A diferença é que seus pais foram de modo natural, e quanto a ele, foi de uma forma tão natural quanto eu pude deixar. – Ele falava com pressa e afobado. Chegava a babar em certos momentos como um cachorro raivoso. Pegou Emanuele pelos braços e continuou a falar atropelando palavras. – Manu… Esquece ele, esquece tudo! Nossa vida está indo tão bem, não está meu amor? Já está tudo planejado, nossa nova casa, sem passado, sem miséria, sem nada pra nos atrapalhar… Deixa esse traste pra lá…

Nesse instante Carlos se levantou, afastou Roberto de Emanuele e como se tivesse recuperado a juventude, acertou um soco na boca com a mão direita, encaixando a sua palma esquerda no queixo em seguida, o derrubando desacordado no chão. Emanuele, em choque chorava e abraçou o irmão como há muito tempo sonhou.

Aquela seria uma noite longa afinal, uma noite extremamente longa. Com as coisas um pouco mais calmas, pode então olhar a lua. Deu um suspiro pesado e pensou: “Talvez nem tudo tenha mudado…”.

 

juhliana_lopes e Aleks Durden

Is this the real life?

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Durante a escuridão tenebrosa de novembro, a neblina mantinha tudo quieto. Ninguém saía de casa no frio britânico. Eu olhava o relógio de pendulo como se pudesse ver o som das suas badaladas. Ouvia atentamente o tic-taquear incessante que rugia em meu cérebro entorpecendo meus pensamentos. Não, perdão, talvez não entorpecendo mas sim fazendo-os tremer diante da realidade. Cada vez que piscava tudo o que via era a escuridão. Não uma escuridão negra, essa era diferente. Era escuro, porém branco.

Minha saliva não estava mais descendo pela minha garganta, a cada dezessete segundo eu olhava pela janela e via o mundo da mesma forma gélida de dezessete segundos atrás. Minha sala tinha uma estande cheia de livros, que cobria a parede por trás de mim. À direita a porta, de madeira nobre, um criado mudo com abajur de pano velho e a cama grande e bem arrumada. Um tapete felpudo cobria todo o chão do quarto. E, a minha frente uma parede vazia, sem pintura. Tijolos cinzas e frios como as janelas de ferro que resistiam às baixas temperaturas.

A cadeira onde eu estava sentado apreciando a unica peça daquela parede, o relógio, era simples mas aconchegante à meu ver. Eu dava outra olhada pela janela e no momento seguinte voltava meus olhos para o relógio. O cheiro de sangue começou a me irritar e comecei a olhar para a janela mais vezes.

Foi aí que comecei a questionar o sistema de saúde da cidade. Uma ambulância não pode demorar tanto tempo para chegar. Meu corpo acabará esfriando. Preciso que encontrem ele logo. Já se passaram dezessete minutos da minha morte. Minha alma precisa de conforto. Precisa saber que meu corpo será bem cuidado. Não posso ir embora sem ter certeza.

O grande relógio toca, imponente e estrondosamente a minha frente. Mas toca só uma única vez e para. Tudo para. O tempo não passa mais… Ele toca novamente, meus olhos ardem mas ainda vêem. Estou sangrando muito mas nada que me faria morrer. Vejo que a noite já vai se esvaindo por entre o horizonte e o dia pede permissão para acordar o povo. Eu durmo ali, no chão.

Quando acordo fico sentado no chão pensando naquilo que tinha acontecido. Lembro-me logo de todo aquele sangue e checo meus braços, pernas e depois onde consigo com as mãos. Esta tudo em ordem. Nenhum arranhão. Levanto do chão assustado e fico olhando pro relógio que não trabalha a dois anos e pergunto à ele como se pudesse me responder:

“Isso foi real?”

-New Reaven

Cicatrizes

 

Tem cicatrizes que a gente simplesmente gosta de enfiar o dedo e sentir a dor por debaixo da pele. Lembrar que ela está ali por algum motivo. Relembrar como e porquê ele foi parar ali. Aquela lagrima, que na verdade é uma mistura de sentimentos, nem você sabe se é um prazer físico, um deleite, ou simplesmente pela dor que existe na cicatriz mais profunda: sua mente.

Como parte de minha vida foi vivida no escuro, acho justo que exista um prólogo antes da historia. Assim como todo meu corpo é marcado, espero que minhas marcas invisíveis também cicatrizem.

O momento chegou, seu passado veio à tona. Todo ele de uma só vez. Todas as noites em claro. As brigas, as discussões, tudo aquilo que de alguma forma ficou gravado. As vezes, que por muito pouco, não fez da morte a única saída. E aquela frase continuava em sua cabeça, aquela cena era tão nítida quanto a água de um lago pela manha. Seu erro foi não ter aceito a morte ao lado de sua mãe, com apenas 4 anos não teria descoberto tudo o que lhe esperava. Aquela corda balançando à sua frente. Como pôde parecer tão absurda tal ideia?! Tanta coisa teria sido poupada.

Sentado em uma escrivaninha de madeira velha a única fonte de luz do quarto provinha do abajur de pano ao canto. Um copo de uísque vagabundo repousava ao lado das folhas que com tanta sede rabiscava. O cinzeiro já abarrotado de bitucas parecia não ter mais fundo. A cada desesperada palavra ali escrita, a cada tragada mortífera que era dada nos incessantes cigarros, a cada badalar do grande relógio por de trás da cadeira, tudo ia se aproximando do fim. A corda que balança no centro do quarto, desta vez foi mais caprichosamente laçada. A banqueta logo abaixo.

Olhando por entre o laço era como se pudesse ver o outro lado da vida. Um véu que separa a existência, da morte. Por mais que a luz fosse homogênea no cômodo, olhando pela corda o outro lado era totalmente escuro. Uma escuridão calma e desesperada ao mesmo tempo. Mas, reconfortante. Segurei-me com as duas mãos e passei o laço pelo pescoço. Uma boa apertada para cima e tudo ficou turvo, tudo ficou lento. O tempo já não corria da mesma forma. Era calmo, como a pétala de uma flor caindo num fim de tarde. O badalar distante do relógio. A calma com que a pobre banqueta despencava sob meus pés. E a leveza com que balançava de braços abertos. Podia sentir todas as feridas cicatrizando levemente, como se dez anos passassem em dez segundos, mas estes eram, com toda certeza, os dez segundos mais calmos da minha existência.

The new guy

Hello you all. Bom, sou novo por aqui, meu nome é Lucas e a Juh gostou do meu conto. Fui convidado por ela para ser “um corvo” e vos digo: é uma honra para mim, que a muito tempo já era fã dos escritos dela. Espero ser (bem) aceito entre os corvos e os leitores deste wonderfull blog.

Sobre o que/quanto postarei:

Gostaria muito de poder compartilhar meus devaneios todos os dias/noites, mas para quem escreve sabe que não é nada fácil escrever, não é simplesmente pegar uma caneta que sai tudo de uma vez. Sempre que escrever algo legal vou postar pra vocês. Meu principal objeto literario são os contos. São todos melancólicos (nada de felicidade). Muitas pessoas morrem, muitas amam e muitas vezes eu mesmo morro, em meus contos.

Pra começo de conversa, vou dividir um trecho de American Horror Story* com vocês.

                                                                    The Axeman

Estimados mortais. Eles nunca me pegaram, e nem irão. Eles nunca me viram, porque eu sou invisível, assim como o éter que rodeia sua terra. Eu não sou um ser humano, mas um espírito, um demônio do inferno mais quente. Eu sou o que seus Orleanianos chamam de “Axeman”. Quando eu achar melhor, eu irei voltar e requerer outras vítimas. Só eu sei quem elas serão. Eu não irei deixar pistas exceto pelo meu machado ensanguentado. Sem duvidas, vocês Orleanianos pensam em mim como o mais horrível assassino, e eu sou. Mas eu poderia ser bem pior se eu quisesse. A vontade, eu poderia matar milhares dos seus melhores cidadãos, pois estou em uma relação próxima com o Anjo da Morte. Agora, para ser exato, as 00:15 horas, do tempo terrestre, na próxima terça-feira a noite eu vou passar por cima de Nova Orleans em minha infinita misericórdia, eu irei fazer uma pequena proposta para o povo. Aqui esta. Eu sou um grande fã de Jazz, e eu juro por todos os demônios nas regiões inferiores que cada pessoa deve ser poupada em cada casa que uma banda de Jazz esteja tocando no horário que eu mencione.

*Seriado recomendado pelo novo corvo;

Corvos 2.0

O Corvos nos Umbrais está de volta, e logo com vários textos pra vocês!

Ainda não temos uma equipe certa, então, logo abriremos a pagina de equipe para vocês conhecerem os corvinhos amigos.

Em breve teremos também um e-mail para você mandar suas críticas e sugestões.

Por enquanto, fiquem com nosso inbox na page do facebook. Curta e compartilhe e acompanhe,

além dos texto, lá postaremos algumas coisas aleatórias também!

Abraço a todos e… Nevermore!

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capacorvos

Ali que devia estar

252026891_4b4e5711ccPor que estava ali? Não sabia responder o porquê, mas só sabia que tinha que estar. Na verdade poderia até saber mais preferiu deixar oculto para si, não queria planejamentos nem ansiedades. O vento frio lhe abraçava com força, e mesmo com os ossos frios não procurou formas de se agasalhar, afinal de contar, era ali que devia estar.

Não havia mais ninguém aquela hora, as luzes da rua em tons laranja deixavam o ambiente levemente macabro, e a leve neblina que começava a concentrar dificultava a visão do que vinha ao longe.

Uma promessa. Havia feito uma e tinha certeza que a outra parte também sabia do compromisso. Passara o dia todo pensando onde devia estar, sempre evitando muitas expectativas. Apenas tinha que estar ali. Não importava o tempo que tivesse de ficar, chegou na hora que havia dito e ficaria ali até cumprir com o combinado.

Por mais que evitasse a ansiedade, não conseguiu se alimentar aquele dia. Não conseguiu se concentrar e todos a sua volta lhe falaram algo sobre o mundo da lua que preferiu não prestar atenção.

Estava ali. Já havia passado pelo menos duas horas. O frio intenso lhe fazia o corpo tremer, mas era ali que devia estar. Repetia para si, e como alguém vencido por um argumento, se viu abraçando a si mesmo por conta do frio que cada vez castigava mais.

Começou então alguns questionamentos, como o porquê do atraso, se seria fruto de alguma enfermidade ou talvez ainda algum esquecimento. Não. Esquecimento não poderia. Enfermidade? Até poderia, mas se fosse, procuraria avisar. Não. Estava por vir. Logo viria. Sabia disso, sua única certeza. Tinha que estar ali, e ali estava.

O sol deu o ar da graça no horizonte. Os pássaros acordaram cantando a alegria de mais um dia. O mundo despertava aos poucos e logo o movimento da rua começou. Mesmo não fazendo parte do ambiente tradicional, ninguém notou. Ocupadas demais, as pessoas seguiam suas vidas, preocupadas com seus afazeres. As crianças. Crianças que sempre veem tudo além dos olhos perceberam, apontaram. Uma riram, outras ficaram curiosas, mas o Adultos apenas seguiam seus caminhos.

Porém alguém percebeu. Ao acordar e sair de casa para seus compromissos, encontrou a frente de casa, definhando na calçada, como se o gelo ainda estivesse sobre os braços nus, tremendo, não por frio, mas por uma esperança. Não havia palavras para serem ditas mas a boca também não conseguia se manter fechada.

Abraçou o corpo, mais gélido que de um cadáver e se surpreendeu por ainda encontrar um fio de vida, naquele ser que estava deitado no chão.

Abriu os olhos, e sorriu. O sorriso apesar de frio, tinha um brilho, e no rosto, uma expressão de conforto e paz: “Eu esperei você, eu sabia que você ia vir… Sabia que não ia me deixar aqui no frio esperando a noite toda… É tão bom te ver…”

 

juhliana_lopes